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domingo, 5 de agosto de 2012

Pontos & Reticências



No dia 24 de julho, uma terça-feira, por volta de sete e meia da noite – em pleno inferno astral! – eu despenquei de uma escada no Espaço Cênico. Queda livre! Como disse logo depois ao médico, isso aconteceu porque eu estava salvando a humanidade pregando uma perna preta no teto do teatro. A escada fechou e eu, qual Ícaro desavisado, mergulhei livre, leve e solto para um estrago no braço esquerdo (fraturas, rompimento de tendões, deslocamento do cotovelo e alguns eteceteras!). Mas como? Oras, eu estava me divertindo, estava trabalhando, fazendo o que mais gosto que é estar no teatro dando forma às coisas, sejam elas, o cenário, as palavras, as ações cênicas ou a limpeza. Minha vida! Ontem um amigo me perguntou de chofre: “Por que você faz teatro?” E eu respondi numa velocidade comparada à da minha queda: “Porque odeio a realidade.” – Ela, a realidade, que se escancarou à minha frente nos últimos dias entre remédios, aparelhos, cirurgias, fisioterapia, dores e desconfortos. Isaac Newton nada entendia de poesia! Uma queda dessas só teria alguma graça poética se acontecesse em câmera lenta e ainda por cima se por algum truque ótico o meu corpo nunca atingisse o solo. E se ao invés do braço o que tivesse atingido o chão com a força que atingiu, fosse a minha cabeça... bem... melhor pensar que ninguém morre na véspera! E as artes? E o teatro? Tiveram – e tem! – que esperar. Justo quando o Espaço Cênico recebia a visita de ilustres falecidos que reviraram o pensamento e o uso das palavras como se a arte fosse um liquidificador de imagens e letras: Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Franz Kafka, Oscar Wilde, Jim Morrison, Rimbaud, Marques de Sade, Anais Nin, Jack Kerouack, Charles Bukowski, Andy Warhol, Nelson Rodrigues e... até Pier Paolo Pasolini. Convenhamos, é muito morto pra um vivo só dar conta! E, claro, eu despenquei! Encarei o vazio como se estivesse marcando um encontro com qualquer um deles, ou todos, antes da hora. E aí, sozinho no silêncio daquilo que não tem volta, o imponderável vai dando as cartas. E o que era pra ser amanhã teve que ser trocado por um outro tempo. Por exemplo, Pasolini e sua vida depois do sonho. Eu, desesperando urgências e o Elder descobrindo que tem que voltar à televisão. Pasolini e sua recusa em deixar-se aprisionar, seja pelo cinema, pela literatura, pela política ou por uma peça de teatro. Pasolini, o corsário! Alguns meses separarão o que era para ser agora e vai ser depois. “Quem somos nós? Perguntou o menino, ao pai, enquanto eles cortavam árvores para produzir madeira. Nós?, respondeu o pai. Nós somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente eles jazem soltos e um pequeno impulso deveria ser suficiente para fazê-los rolar. Mas não, isso é impossível, porque estão firmemente atados ao chão. O menino abriu os olhos, espantado com a revelação. E o pai concluiu: Mas veja, até isso é apenas aparência”. Isso é Franz Kafka. Mas poderia ser qualquer um dos outros mortos citados aí atrás! É tanta arte, tanto sonho, tanto desejo, tanta necessidade, que os caminhos da realidade se misturam aos do sonho e a vida parece ir sendo escrita nas estrelas enquanto a carne se regenera e o osso cola. Nossos vivos e nossos mortos! O Elder, meu ator querido volta agora ao Rio de Janeiro gravar uma minissérie na Record e eu fico aqui em Curitiba elaborando “Kafka – A Vigília”, enquanto Pasolini espera mais um pouco. Quando retornarmos a ele, talvez mais cedo do que se imagina, outras artes terão acontecido por força da paixão. E outros sonhos já estarão visitando nossos sonos. Como disse o bardo... “Viver, dormir... talvez sonhar...” e outra, tão complexa mas bem mais próxima: “A felicidade vive numa encruzilhada...” – Clarice Lispector. Então que nosso encontro no palco (meu, do Elder e do Pier) será adiado por conta do que é concreto. Só o destino. E agora, para quem espera um ponto final eu me reservo o direito de terminar este post com reticências... (Edson Bueno)

domingo, 29 de julho de 2012

Edson Bueno, O Evangelho Segundo São Mateus, Sábado, 28 De Julho





O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS - Sábado dia 28 de julho - Porque o ar, o ar contém uma quantidade enorme de microorganismos vivos... são os chamados... Gralha Azul de Melhor Adereço de Figurino!

Em Agosto


  Pasolini, A Vida Depois Do Sonho




Com Elder Gattely


Direção: Edson Bueno


Curitiba




quarta-feira, 18 de julho de 2012

Grupo Delírio & "Capitu - Memória Editada", Detalhes Aqui


Quinta-Feira - entrada LIVRE (pague quanto quiser)
Sexta-Feira - (20/10R$) papo aberto com a galera do elenco depois da peça
Sábado - (20/10R$) oficinas de manhã e tarde, garanta sua vaga!
Domingo- (20/10R$) espetáculo começa as 19h.





Em Agosto


  Pasolini, A Vida Depois Do Sonho


Com Elder Gattely


Direção: Edson Bueno


Curitiba

segunda-feira, 16 de julho de 2012

sábado, 14 de julho de 2012

Minha Vontade De Ser Bicho, Foto De Chico Nogueira


Belíssima foto do Chico Nogueira na estreia de MINHA VONTADE DE SER BICHO! Tudo lindo... ator, atriz, cenário, luz, flores, expressões... tudo lindo!  Edson Bueno

O Teatro De Edson Bueno & Grupo Delírio


Salomé 2007



Tangos, Portas o Céu 2006



Dentro De Mim Mora Um Grito 2006




Macbeth 2006



Martuin Maksimov 2005


Vermelho Sangue Amarelo Surdo 2001


Onde Estivestes À Noite ? 2000

Histórias Urbanas De Arrepiar 1998
Psicose, A Comédia 1995

Anatomia Humana Segundo Vico & Campanella 1994
Fred & Cloé 1994
Paisagem De Meninos 1993

O Beijo No Asfalto 1992
A Falecida 1992
New York Por Will Eisner 1990
Uma Visita Para Frieda 1989
A Sedução 1986
Um Rato Em Familia 1984

Veja mais de Edson Bueno aqui:

http://pasolinividadepoisdosonho.blogspot.com.br/search/label/Edson%20Bueno

Edson Bueno & Elder Gattely aqui :
http://pasolinividadepoisdosonho.blogspot.com.br/search/label/Elder%20Gattely


Em Agosto


  Pasolini, A Vida Depois Do Sonho



Com Elder Gattely


Direção: Edson Bueno


Curitiba




quarta-feira, 4 de julho de 2012

Edson Bueno Na Revista Devista


Edson Bueno, ator e diretor de Curitiba fala sobre seu novo trabalho com o 
ator Elder Gatelly, "Pasolini, A Vida Depois Do Sonho".
Confira na proxima edição da Revista DEVISTA.




Em Agosto

 Pasolini, A Vida Depois Do Sonho


Com Elder Gattely

Direção: Edson Bueno

Curitiba



segunda-feira, 25 de junho de 2012

"Por Que Pasolini ?", Por Edson Bueno



O Dante me pede uma resposta para esta pergunta. Hmmm... Sempre que estreio um espetáculo, talvez as perguntas mais comuns e também as mais difíceis de responder sejam estas: “Por que esse autor?”, “Por que esse texto?”, “Por que esse tema?” A verdade é que ao longo de tantos anos de fazer teatral, que pedem, na minha modesta opinião, uma disposição acima de tudo humana, ter alguma coisa a dizer ou a conversar é a alma do negócio. Somos a soma de nossas paixões, de nossos mitos, de nossos exemplos e de uma forma ou de outra nos espelhamos neles e esperamos que, pelo menos um pouco, de nossa criação seja digna da arte maravilhosa que fizeram. Minhas paixões? Alfred Hitchcock, Federico Fellini, Woody Allen, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Peter Brook, Ariane Mnouchkine, Luis Bunuel, Antunes Filho, Gabriel Vilela, Van Gogh, Michael Nyman, Oscar Wilde, Franz Kafka, Peter Greenaway, Francis Ford Copolla, Luchino Visconti, Almodóvar, Garcia Lorca, Andrei Tarkoski… Todos que de alguma forma forjaram minha visão da arte e, ainda humanamente falando, forjaram a minha visão de mundo... Tanto quanto Osho, Reich, Jesus, Nietzsche, Lowen, Freud e... Pasolini! Eu tinha 18 anos quando assisti, assim, desavisadamente, a “Teorema” num grande e belo cinema de Curitiba que virou estacionamento, o Cine Condor. Eu era um quase sem cérebro e não tinha a menor visão política. Não fazia ideia do que eram esquerda, direita, burguesia ou proletariado; e ainda tinha pouquíssima noção da ditadura que envolvia o Brasil e não fazia ideia de que pessoas estavam sendo torturadas ou assassinadas nos porões dela. Aos dezoito anos eu era um menino parado no meio da vida, tentando compreender o que acontecia dentro do meu corpo... Coisa que hoje os meninos experimentam aos 12 ou 13 anos. E lá fui eu assistir “Teorema”, nem sei por quê. Na verdade sei. Sempre fui, desde os 14 anos, um apaixonado por cinema, qualquer um; e graças a um livrinho chamado “O que é cinema?” desenvolvi uma necessidade pela sétima arte feita na Europa. Perseguia os filmes europeus, de Truffaut a Bergman, como um cão farejador e esse tal Pasolini e seu filme “Teorema” estavam na lista de suspeitos habituais. A Trilogia da Vida e “Saló” sabia que seriam impossíveis porque a censura era brava! Então se eu não tinha a menor prontidão pra entender o Pasolini comunista, percebi o Pasolini homossexual, falando de sentimentos reprimidos e tesão, explorando a beleza perigosa de Terence Stamp sem dó nem piedade. E a mesma pergunta que me fiz quando assisti “Os Pássaros”, de Hitchcock, me fiz quando saí do Cine Condor, atordoado por “Teorema”, exibido com cortes: “Quem é esse diretor?” E avancei por Pasolini, como sempre faço quando amo. Não tanto pelo cinema porque seus filmes eram quase inacessíveis, mas por tudo quanto pudesse ler e entender dele. E fiquei fascinado e o admirei e em muitos momentos quis ser ele. E houve o dia em que em plena manhã, atravessando a Praça Tiradentes pra ir ao trabalho, folheando “A Gazeta do Povo”, leio, no meio da rua, que ele havia sido assassinado por um garoto de programas, num local isolado e que o rapaz tinha passado com o carro por sobre seu corpo diversas vezes. Como a política e a luz ainda passavam ao largo da minha vida, acreditei que realmente, tinha acontecido um crime de origem sexual e que envolvia prostituição masculina. Mas naquele meu olhar apaixonado por Pasolini, só consegui sofrer a sua perda, tendo visto até então só dois ou três filmes dele, e não experimentei aí qualquer julgamento moral, porque nunca achei errado sair em busca de prazer, muito pelo contrário. Não somos nem tão inocentes e nem tão pecadores como queremos parecer ou queremos que os outros sejam. E convenhamos, de Pasolini pra cá, somos muito menos! Pasolini e seu sonho de liberdade estariam pra sempre carimbados na minha alma e seu cinema original e libertador, embora cruel e violento, era naquele momento, espelho também da minha alma de menino quase grande, ignorante da vida e desejoso de prazer. Ainda hoje, eu, muito maduro, me sinto em muitos aspectos, o mesmo menino. E talvez por isso, retornar a Pasolini, agora como criador, me ajude a desvendar mais um pouco da vida. Mais um pouco do tudo que me falta e que eu espero conhecer antes da decadência. Mas... e sempre existe um “mas”... até isso é apenas aparência. Porque nunca vou esquecer a minha experiência em 2005 com Machado de Assis. Li Machado na adolescência e depois na maturidade. Era outro Machado! Machado de Assis na minha maturidade modificou minha maneira de fazer teatro, deu-me inspiração para as palavras e eu compreendi porque ele é o maior romancista brasileiro! Assim que Pasolini na minha maturidade é o escritor, poeta, cineasta, ativista político que tem o que dizer para o meu tempo, que é tão outro dos anos 60/70 quando ele criou e morreu. Se permaneço puro e ingênuo como artista, não o sou mais com relação à vida e à sociedade. Pasolini, hoje, é mais importante! E é dele que quero falar! Por isso! Mas sei que jamais pretenderei ser uma testemunha dele, porque ninguém pode ser testemunha de ninguém. Isso ou é arrogância ou ignorância. Pretendo sim, excursionar pela lacuna, pelo buraco que ficou entre a obra do gênio e ele próprio. Pretendo amá-lo mais ainda! Descobrir novas paixões em seus escritos e em seus filmes; em suas ideias e sua vida. Não quero que ele morra mais uma vez, nem quero chorar sua morte mais uma vez. Quero dar à plateia a experiência de vida que tive quando assisti “Teorema” e, ainda depois, quando pude percorrer sua cinematografia. Entender as grandes transformações do meu tempo e refletir com a poesia do gênio. Se conseguir, com o Elder e todo mundo, vai ser mais uma vitória! Para encerrar vale dizer uma coisa tão óbvia quanto verdadeira: Amo Pasolini! Tanto e mais quanto o amei na juventude!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Edson Bueno Por Pagu Leal

A pedido do Ivam Cabral dos Satyros, para a Centro de Formação das Artes do Palco/São Paulo,  Pagu Leal (atriz, autora e diretora) escreveu um texto sobre o Edson Bueno.



“Durante nossa trajetória de artistas de teatro, muita gente passa. Muitos trabalhos diferentes, muita alma, muito dilema, muita vida, muito abraço, muito avião, muito espelho compartilhado, muito pancake, muita espera, muito não. Eu acho que, pra tanta coisa vivida, até que fica pouca coisa guardada. A memória não dá conta de tantas histórias. Indistintos são os dias daquela longínqua temporada em que sumiu o refletor, que o espartilho não fechou, que a peruca sumiu. Quando foi mesmo? Comigo é assim, boa parte da minha trajetória, o conteúdo precioso da minha caixa de fotos de teatro, minhas melhores crônicas são as vividas ao lado do Edson Bueno.
 A gente já fez o diabo juntos! Fomos marido e mulher, professor e aluna, amante, amigo. Pra ele já fui menina, soldado, velha, puta, entre outras. Criamos com Oscar Wilde, Edgar Allan Poe, Shakespeare e Kafka. Texto dele. Texto meu. Ele já me dirigiu mais de 20 vezes e eu, também, já tive a honra dirigi-lo, e ele, a generosidade de se deixar dirigir por mim. Já fizemos muito teatro, cinema, TV e comida juntos. Um bocado de vida e de emoção. Porque viver perto de um criador como o Edson é encher a vida de emoção.
 Tem de tudo entre nós. Tem tons e gestos aprendidos com os anos de convívio. Tem familiaridades. Tem aquela cara que eu conheço. E tem também uma coisa que ele faz, uma curiosa característica do Edson, que eu adoro. Estamos lá, ensaiando a cena, e ele lá, vendo a cena, quando, de repente, ele pula de sopetão, morde a língua e esfrega suas mão em cima da cabeça. É o sinal! Segure-se! Lá vem! Vem loucura e poesia. O que vem de lá é arte.
 De todas as nossas vidas em comum, de tudo o que já passamos, de todos os momentos, o mais precioso, pra mim, é aquele em que ele está diretor e eu atriz – uma imensa capacidade criativa com uma inesgotável energia. É muito envolvente trabalhar com o Edson. Eu vibro com ele. Eu piro com ele. Ele me perturba. Ele me irrita. Ele me põe louca, mas, nunca perdida. Nunca sem direção. Eu confio. Mente e intuição. É isso, esta coisa de confiar inteiramente que faz mais intensa esta relação diretor/atriz. Acreditar que aquela pessoa não vai te apontar o caminho errado, mesmo que você não entenda porque ele quer a cena daquele jeito. Isso é raro. Para uma pessoa cética como eu, quase impossível. Não é fácil. Nem sempre é bom. E não há outro jeito. É profundo e perturbador criar junto. Talvez, não haja ninguém que habite tantos opostos em meu coração. Já o odiei muitas vezes, porém, muito mais vezes o amei de olhos fechados.”

terça-feira, 5 de junho de 2012

Entrevista De Maite Schneider Com Edson Bueno

No penúltimo dia de “Satyricon Delírio”, dia 26 de maio,  Maite Schneider entrevistou Edson Bueno, claro, sobre Satyricon; mas uma boa entrevista fala do entrevistado, da sua opinião sobre o teatro e sobre as linguagens que cada conteúdo pede. Dá, sem dúvida, pra antever como será o monólogo que o Edson Bueno e o Elder Gattely preparam para julho sobre Pier Paolo Pasolini.






domingo, 3 de junho de 2012

Satyricon, Grupo Delírio Cia De Teatro, 2012










Satyricon Delírio, de Edson Bueno, colocou 34 atores em cena para a adaptação do romance romano que fala de ciúmes e obsessão. 

Edson Bueno em foto de Chico Nogueira

Quando leu a tradução de Paulo Leminski de Satyricon, de Petrônio, há 20 anos, o diretor de teatro Edson Bueno pensou que aquela seria uma bela provocação, capaz de fazer parar e pensar sobre preconceitos e hipocrisias ligadas ao sexo. Acertou, já que Satyricon Delírio causou frisson desde a estreia, durante o Festival de Teatro, e lotou as apresentações no Espaço Cênico, de quinta a domingo. 
A adaptação curitibana do romance romano, datado de 60 d.C., colocou 34 atores em cena quase o tempo todo, tascando olhares sedutores na plateia.
Tudo começa numa movimentada praça do império de César. Em meio aos muitos personagens, surge um triângulo amoroso homossexual em apuros – aliás, rapidamente se percebe que o tempo histórico em questão exige uma readequação de conceitos: o amor e o sexo homossexuais aparecem como algo paralelo ao equivalente heterossexual, e não como uma exceção. 
O trio, formado por En­colpo, Ascilto e Giton, sofre por ciúmes e desconfianças, enquanto encontram em uma viagem seres ainda mais libertinos e vivem aventuras que revelam mais sobre si mesmos.
No segundo ato, chegam à casa de Trimalcião, vivido por Maurício Vogue, espécie de mecenas adorado que facilita a resolução de um conflito íntimo de Encolpo: ele se viu enfraquecido justo no órgão do qual “dependia toda sua glória”, como define seu anfitrião no longa-metragem Satiricon, de Fellini (1969). A segunda escolha do Delírio que pareceu alongar o espetáculo foi por alternar dois momentos de “bacanal” com dois tempos sublimes.
Apesar do vaivém, o contraste deixa o trabalho bastante rico, quando os atores saem e voltam ao palco numa forte mudança de clima. Foi ótima a sacada de incluir nudez somente nas etapas mais delicadas, em que as luzes são diminuídas e as palavras dão lugar a uma coreografia sutil, mas poderosa.
Os movimentos, fruto de muita pesquisa do grupo, falam da criação do mundo e do surgimento do homem em meio aos deuses que o manipulam. Certamente, não se trata de um trabalho fácil, apesar do ilusório verniz de “peça de sacanagem”.
Entrevista com Edson Bueno, diretor do Grupo Delírio
“O caos tem de estar presente”
Como foi a reação do público à peça?
Passados os primeiros dias de choque cultural, lotou todos os dias. 90% do público achou o maior barato, uma ousadia. Recebo muitos e-mails e pessoas me adicionam no Facebook para dizer o que acharam. E divulgam.
Quem você tinha em mente como público?
Imaginava adolescentes de até 30 anos, mas 70% do público tem até 35 anos. Com o tempo, o público que veio é mais intelectualizado e afinado.
Como foi preparar tantos atores?
Foram 34 atores em cena. Todos com alguma experiência, de diferentes escolas – Cena Hum, Lala Schneider, Pé no Palco. O grande barato é que isso trouxe todo tipo de prática teatral, mas, mesmo assim, consegui dar uma linguagem clara. Teve uma homogeneidade mantendo o heterogêneo. Também não quis que todo mundo ficasse igual – o caos tem de estar presente.
Eles deram conta do recado?
O que me deixa satisfeito é que todo mundo acaba feliz. Todos emagreceram muito, teve gente que perdeu seis quilos. Vi a “involução” do elenco, que mostra o quanto a peça exige fisicamente, e que eles não se economizam.
Você suprimiu partes ou expandiu o teor erótico do livro?
O livro é mais nojento até, mais desagradável, tem coisas bem grotescas e grosseiras. Ele renderia uma peça de 12 horas recheado do que há de mais… O que a gente fez foi não esconder.
O objetivo era provocar?
Quando li o livro, achei uma grande provocação. Sabia que faria parar e pensar de maneira radical. E mesmo no Império Romano foi, senão, não teriam obrigado o autor a se suicidar. E isso numa época em que alguns aspectos morais eram muito mais livres do que hoje.



quinta-feira, 31 de maio de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

Grupo Delírio Cia De Teatro






O Grupo Delírio Cia. de Teatro é uma das companhias mais atuantes de Curitiba, Paraná. Em atividade há 27 anos, produz 23 espetáculos, todos sob a direção de Edson Bueno, sendo que grande parte deles é premiada e de grande sucesso, como "New York Por Will Eisner", "Lágrimas Puras em Olhos Pornográficos", "Metamorphosis" e "O Evangelho Segundo São Mateus".
Presta ainda serviços a instituições como o Centro Cultural Teatro Guaira, Instituto Goethe, Fundação Cultural de Curitiba, Sesi/PR e Centro Cultural Banco do Brasil, para encenações e produções de grande importância e sucesso, onde, além das necessidades comerciais, o respeito pela linguagem e a paixão pelo mundo das idéias e pela capacidade do teatro de refletir sobre a vida e iluminar o espírito sempre estiveram presentes.
A essência de sua pesquisa teatral é a utilização da palavra como linguagem e comunicação direta com a platéia, indo além da ilusão da cena teatral.
Entre seus espetáculos, estão as seguintes montagens: "Lágrimas Puras Em Olhos Pornográficos"; "Equus", de Peter Shaffer; "Vermelho Sangue Amarelo Surdo"; "Metaformose de Kafka" e "Kafka - Escr'rever é um sono mais profundo do que a morte"; e "Metaformose Leminski - Reflexões de Um Herói Que Não Quer Viver Pedra" Tem uma longa história de pesquisa da palavra e acumula mais de 30 Troféus Gralha Azul para os melhores do Teatro Paranaense. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Pasolini - Secretamente Homoerótico


No livro PIER PAOLO PASOLINI, de Maria Betânia Amoroso, nas páginas 36 e 37 há uma bela associação entre a cena final de “Mamma Roma”, em que o garoto Ettore está amarrado a uma mesa e prestes a morrer e a pintura “Cristo Morto”, de Andrea Mantegna (1430/1506) – Não é mais novidade que Pasolini inspirava-se em pinturas clássicas para compor seus quadros de cinema, mas a associação, de certa forma, disfarça uma outra força de imagem que não pode deixar de ser levada em consideração. O plano final de “Mamma Roma” é, claramente, erótico. Difícil de aceitar seu erotismo já que a circunstância dramática é violenta (o garoto está prestes a morrer e ainda é um adolescente) e a sequência é o martírio de um inocente diante de uma realidade social cruel e desumana. Ettore, por força da condição de vida é conduzido à marginalidade sem muita escolha e seu destino só poderia ser a morte, mesmo que, diante dela, não compreenda o seu por quê. O garoto está seminu e o centro do plano é seu órgão sexual, claramente uma opção de Pasolini. Impossível descolar o ativista comunista e político, com conteúdos fortes de anarquismo e denúncia social, do homem apaixonado pelos garotos. Já em “Accatone” eles estão lá, com suas sexualidades explícitas, em planos vigorosos e closes apaixonados. Quando penso no Pasolini dos seus dois primeiros filmes, sempre o imagino pequeno diante de um Rosselini (Roma Cidade Aberta) ou De Sica (Vítimas da Tormenta e Ladrões de Bicicletas). Só consigo descolar sua inquietação poética quando me deparo com planos secretamente homoeróticos (a calça justíssima de Ninneto Davoli em “Gaviões e Passarinhos) ou explicitamente eróticos, quase desrespeitosos com o conteúdo do filme, como o tal de “Mamma Roma”. A pulsão sexual é a originalidade de Pasolini quando o assunto é cinema, não tenho dúvidas. Tentar negar-lhe essa exclusividade é abrir mão do seu melhor pelo que ele tinha de mais comum. O Pasolini paradoxal que se permitiu libertar com a Trilogia do Amor e depois negou-a para fazer “Saló”, um mea culpa claríssimo (ainda mais que negou a Trilogia) é necessário no que ainda tem de revolucionário, no poeta de duas faces que, racionalmente, denuncia e se revolta com a exploração do homem pelo homem e ao mesmo tempo caça garotos de programas para levá-los a um terreno baldio e fazer sexo com eles. No hiato entre uma coisa e outra está a verdadeira obra desse grande artista e é nele que precisamos afundar para um espetáculo verdadeiramente sincero e digno do mestre.
Edson Bueno